Como estamos desaprendendo a viver uns com os outros

by - agosto 01, 2026

desaprendendo a viver uns com os outros

Houve um tempo em que uma visita não precisava ser marcada com semanas de antecedência. As pessoas simplesmente chegavam. Um café era passado às pressas, algumas cadeiras eram puxadas para a varanda ou para a calçada e, sem perceber, a tarde inteira passava entre conversas simples. Não era preciso um motivo especial para estar presente. A presença, por si só, já era suficiente.

Hoje, tenho a impressão de que isso ficou cada vez mais raro. Pois, aos poucos, fomos aprendendo que toda visita incomoda, que toda interrupção atrapalha e que cada um deve permanecer dentro do próprio espaço. A privacidade ganhou relevância — e, de fato, ela merece ser respeitada. Mas talvez, tenhamos confundido limites saudáveis com distanciamento.

Tenho refletido sobre isso porque, aos fins de semana, costumo visitar pessoas que, por diferentes motivos, estão fragilizadas. Algumas enfrentam problemas de saúde. Outras apenas se afastaram da igreja e da convivência que um dia tiveram. E, em quase todas essas visitas, percebo algo em comum: elas não precisam apenas de uma oração. Precisam de presença.

É curioso como, muitas vezes, uma conversa tranquila, um café compartilhado ou alguns minutos de atenção sincera conseguem aliviar um coração que há muito tempo se sentia esquecido. Ainda existam mais pessoas precisando de companhia do que imaginamos.

É claro que nem toda porta deve estar aberta para qualquer pessoa. Discernimento também é uma forma de cuidado. Existem relacionamentos que exigem limites e momentos em que a cautela é necessária. Mas outra coisa muito diferente é transformar o isolamento em estilo de vida.

Tenho a impressão de que estamos perdendo, pouco a pouco, a beleza da convivência simples. Da visita sem grandes cerimônias. Da conversa que não precisa de um relógio marcando a hora de terminar. Do café preparado sem planejamento, apenas porque alguém decidiu estar ali.

Enquanto refletia sobre isso, pensei em quantas vezes Jesus escolheu estar na casa das pessoas. Grande parte de Seus ensinamentos aconteceu ao redor de uma mesa. Ele visitava, aceitava convites, compartilhava refeições e fazia da presença uma forma de cuidado. Antes de ensinar com palavras, muitas vezes ensinava permanecendo. E amar o próximo também passe por isso: reaprender a estar presente.

Vivemos em uma época que valoriza a praticidade, mas o afeto continua exigindo tempo. Nenhuma mensagem substitui um abraço. Nenhuma chamada de vídeo reproduz o silêncio confortável de uma boa conversa. E nenhuma tecnologia consegue ocupar o lugar de alguém que decide bater à nossa porta apenas para perguntar como estamos. As portas das nossas casas continuam de pé. Talvez sejam os nossos corações que estejam ficando cada vez mais difíceis de alcançar. Somos nós que, aos poucos, estamos desaprendendo a viver uns com os outros.

Beijos e até a próxima.



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